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Márcio Antonucci, da dupla Os Vips, e produtor do Ave Sangria (1945/2014)

Publicado em 20/01/2014, Às 17:31

Os Vips, em 1966: Ronaldo e Márcio Antonucci

Os Vips, em 1966: Ronaldo e Márcio Antonucci

Márcio Antonucci, que formou com o irmão Ronaldo, a dupla da Jovem Guarda, Os Vips, faleceu, hoje, em consequência de uma pneumonia no Rio. Estava com 69 anos. Ele foi também produtor da Som Livre, e de musicais da Rede Globo e TV Record.

O anúncio da morte foi feito em São Paulo pela sua ex-mulher, Lilian Knapp, (da dupla Leno & Lilian. na Jovem Guarda), e na página do cantor, assinado por seu filho, Bruno Antonucci.

Espelhado nos Everly Brothers (que, coincidentemente,  perdeu um integrante, Phil Everly, há duas semanas)  Os Vips foi responsável por hits como A volta (anos depois regravado pelo autor, Roberto Carlos), É preciso saber viver, Longe tão Perto, Emoção, Largo tudo e venho te buscar.

Foi de longe a dupla mais bem sucedida a era do iê-iê-iê. E a que mais contou com composições de Roberto e Erasmo Carlos, responsáveis pelos cinco maiores sucesso da dupla.

Márcio Antonucci entrou para a história da música pernambucana como produtor do único álbum do Ave Sangria, em 1974. Abaixo trechos de uma entrevista inédita com Antonucci, feita para o livro Do frevo ao manguebeat. (do titular deste blog). Acabou não sendo enviada a tempo para a editora, e continuava inédita.

ENTREVISTA

P – Antes do Ave Sangria você já havia produzido quais artistas?

Márcio AntonucciEu produzi tantos artistas e fiz tantos projetos que não me recordo de quem, ou quais produzi, antes do Ave. De qualquer forma, só nos anos 60, eu produzi Marcos Roberto, Sérgio Reis, Dori Edson, Os Jordans, Demetrius, todos da Jovem Guarda.No 70, produzi Novos Baianos (o Novos Baianos F.C), Luiz Melodia (Juventude Transviada), Os Motokas (12 volumes), Os Famks (hoje Roupa Nova), Samba, suor e ouriço, abertura de novelas, Osmar Milito, Carlos Lyra, Painel de Controle, e muitos outros, eu era bem eclético.

P – E nos Vips, quem produzia vocês?

Márcio AntonucciNo início da carreira, na Continental, era eu e o Roberto Carlos. Depois nós fomos pra CBS, e foi o Jairo Pires. Na já na BMG foi o Osmar Navarro e depois, na volta à Continental, fui eu novamente.

P – Os integrantes do Ave Sangria dizem que você ficou meio surpreso com aquele bando de nordestinos, e que eles até trouxeram peixeiras pro estúdio (as peixeiras, contado por Paulo Rafael).

Márcio AntonucciTudo história, pra tirar onda, apenas. Eu não tinha porque ficar surpreso com nada, porque já tinha mais de 15 anos de carreira e conhecia todas as vertentes da MPB. Mas eles foram uma agradável surpresa, pela personalidade. Sabiam o que queriam, e tenho certeza que uma delas era não gravar tão rápido e naquelas condições.

P – Como foi o processo de produção do disco. É verdade que você não queria gravar algumas músicas que os caras trouxeram (uma dessas, segundo Almir de Oliveira, o baixista, de cabelo blackpower, chama-se Fora da Paisagem).

Márcio AntonucciSabe como é, a gente sempre quer colocar um pouco da nossa experiência no processo. Apesar de um disco totalmente autoral, tentei ajuda-los com minhas dicas. Nas aquela música era muito ruim. Não sei se ouvindo hoje eu vou gostar.

P – O grupo tocou com quais instrumentos, já que não possuíam boa aparelhagem?

Márcio AntonucciNão me lembro. Não sei se tocaram com os deles, ou se aluguel.

P - Como foi o relacionamento de vocês durante as sessões de gravação?

Márcio AntonucciDe minha parte, o melhor possível. Lembro muito bem das brincadeiras e gozações que a gente fazia, mas na hora do “vamu vê” o pau comia

P – Alguma coisa em especial lhe chamou atenção no grupo?

Márcio AntonucciSem dúvida, o Ivinho e o Marco. Eles eram diferenciados

P – Você lembra se houve alguma sugestão da gravadora para amaciar o som da banda? Ao vivo eles eram mais pesados, enquanto no disco soam bem mais acústicos.

Márcio Antonucci – Não, não houve nada disso. O eu houve é que o estúdio em que a gente gravou era muito ruim para rock and roll e ai o som ficou meio amaciado.

P – Em quantos dias vocês gravaram o disco? Alguma música gravada acabou sobrando?

Márcio AntonucciPenso que em uma semana, mais ou menos. Eles vieram por conta da gravadora, e cada dia no Rio contava gana. Uma pena, porque não deu pra mexer muito no que já veio ensaiado.

P – Não sei se você lembra, mas o álbum, pouco tempo depois de lançado foi proibido pela censura federal por causa da faixa Seu Valdir, que contava uma paixão de um rapaz por um senhor mais velho? Você se lembra do episódio, ou dessa música?

Márcio AntonucciLembro, e disse pro pessoal, no estúdio, que a música era boa, mas difícil de ser aceita. Aconteceu. Depois o Ney Matogrosso regravou e fez um sucesso relativo com ela.

P – E depois? Você continuou produzindo outros artistas?

Márcio AntonucciComo já disse, até hoje faço meus trabalhos de produção. No ano passado, produzi CDs do Louro José, Ana Maria Braga, que teve como convidados Zezé & Luciano, Fábio Jr, Leonardo e Xande. Mas penso que o meu maior sucesso foi Os 30 anos da Jovem Guarda, os cinco CDs gravados em 1995, que até hoje venderam mais de três milhões. Eu disse três milhões de cópias, e ninguém fala nada sobre isso. Coisas do Brasil.

No final da entrevista, Márcio lamentou a morte de Israel Semente, e os problemas de saúde de Ivinho, e encerrou “ Gostaria de reencontrar o Marco, o Paulo e o Almir pra gente bater um papo.  Ao ave Sangria, minha saudade e meu reconhecimento pela luta underground. Neste país, não é fácil.

Confiram os Vips em Emoção (Roberto e Erasmo Carlos):

 

 

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Postado por José Teles

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