Ao lerem este comentário, já estarei na redação do Jornal do Commercio, no Recife. A missão da Fecomércio – que me deu a oportunidade de conhecer uma pequena parte da China – retornou ao Brasil no último final de semana.
Na ida, levei a expectativa de encontrar um “mundo” completamente diferente do ocidental. Mas em tempos de globalização e de uma China cada vez mais aberta para mercado internacional – visando comercializar seus produtos pelo mundo – é mais comum do que pensei encontrar traços ocidentais em locais como Xangai, Pequim e Cantão.
Percebi o quanto a segunda maior economia do mundo é determinada quando precisa fazer algo. Claro que o severo regime político ajuda. Mas é intrigante observar o salto em infraestrutura que foi dado nos últimos anos.
As obras viárias (que, aliás, abrem caminho sem qualquer preocupação com os moradores das áreas afetadas) dotam o País de uma infraestrutura que devo demorar para ver no Brasil.
Me chamou atenção também o quanto a população mudou seu poder de consumo. Embora tenha como característica copiar produtos, é lá na China que marcas como Louis Vuitton, Cartier, BMW, só para citar algumas empresas, ganham cada vez mais espaço com lojas cada vez maiores.
Claro que a população do campo ainda deve demorar a ser inserida nesse desenvolvimento econômico da China.
Sem qualificação adequada, são os recém-chegados do interior chinês que cobram menos pelo trabalho exercido nas fábricas. Como efeito prático, produtos mais baratos inundam o comércio mundial. Isso, além de uma desvalorização artificial do iuane frente ao dólar. Bons ou ruins, são esses fatores que colocam cada vez mais a China no mundo.
E é pensando no poder desse país que cresce acima da média mundial que me lembrei de um rápido encontro com presidente do Conselho de Promoção do Comércio Internacional de Cantão (CCPIT), Chen Wen Jie.
Após falar sobre as metas da China para o comércio internacional, em um rápido aperto de mão, ele me olhou firmemente e perguntou: “E você, já fala mandarim?”.
O que parecia uma brincadeira, até mesmo pelo riso solto do executivo que veio na sequência, podia ser, na verdade, um aviso: sairá na frente quem souber se comunicar bem com esse lado do mundo.
Para encerrar os trabalhos do blog, publicaremos, ao longo desta semana, imagens e pequenos textos sobre a China, suas peculiaridades e impressões sobre algumas das suas cidades.
Tenho menos de 1,60 m, preciso perder dois quilos e tenho cabelo escuro. Conclusão: quando entro nos lugares quase nunca chamo atenção. Tudo bem, sem problemas. Outro dia, em uma das áreas de maior concentração de turistas em Pequim, nas proximidades do Silk Street, aconteceu algo engraçado. O chamado Silk Street (mercado da seda) é um edifício cheio de lojas com uma pequena amostra de quase toda produção da China. Tem tanto turista que qualquer acidente ali movimentaria boa parte das embaixadas instaladas em Pequim. Resolvo comer na McDonald’s mais próxima e ganhar tempo para percorrer as lojinhas.
Ao me dirigir ao lavabo, um rapaz se aproxima e, num inglês pra lá de complicado, diz algo como “from”. Pensei: ele quer saber de onde sou?. Puxar conversa, assim tão rápido. Tentando demonstrar que não queria bater papo, digo apenas ‘Brasil’ e dou a entender que vou sair do local. Ele repete e, deste vez, minha cabeça vai adiante. “Phone?”. Meus Deus, agora ele quer meu telefone!!!!!. Que povo atirado! E eu uso aliança! O chinês com cara de sério, ao perceber que eu não entendia o que ele, com ar de segredo, me dizia, resolveu ser mais objetivo e me mostrar algo escondido na jaqueta. E foi aí a minha surpresa. Ávido por ender e sabendo da quantidade de estrangeiro que circula pelo local em busca de produtos xing ling, o rapaz, na verdade, se aproveitava do fluxo de turistas na lanchonete. Naquele momento, ele não queria meu telefone ou saber de onde eu era. No máximo, estava interessado em saber quanto eu pagaria por um IPHONE!!!!
Às vezes fico pensando se aqui na China é mais perigoso ser pedestre ou estar dirigindo um carro. Nos primeiros dias, fiquei espantada com o comportamento dos chineses na direção. Eles simplesmente mudam de faixa, sem qualquer aviso ou temor em relação ao carro que está no seu caminho. Outro dia, em um dos trajeto para um evento, nosso motorista fez exatamente isso: quis mudar de faixa e foi embora. Determinado a ocupar o outro lugar, ele terminou raspando em outro veículo. Nada grave, a polícia chegou rápido e seguimos em frente.
Sei que muita gente dirige assim pelo mundo, mas aqui na China tem uma explicação plausível para tamanho descuido rotineiro. Boa parte dos chineses passou a ter carro recentemente. Poder entrar em uma concessionária e sair dirigindo é algo novo para a maioria da população. E adivinhem qual era o meio de transporte anterior? Bicicleta. Isso, esse “veículo” que tudo pode, que não está exatamente sujeito às regras de trânsito, que vai e vem sem qualquer problema. Assim, vamos vendo um motorista parar em plena rodovia de alto fluxo, fazer o retorno onde é totalmente proibido e até dar ré até em viaduto.
Criada em subúrbio, nunca tive frescura com comida de rua. Preparando as malas para China, quase todos me falavam da comida. Conhecido por oferecer espetinho de tudo que se move, o país é uma experiência culinária e tanto. E mesmo a internet aproximando todo mundo de tudo, estar diante de um churrasquinho de barata é algo que não se esquece. E aranha assada! Outro dia, no café da manhã do hotel, me deparei com uma tigela cheia de algo semelhante a geleia de mocotó. “Hummm…. e já vem cortadinha!”, pensei. Coloquei uns pedaços no prato e segui rumo à mesa. Ao provar, fiquei na dúvida: É tinta de impressora ou caldo de grude em forma de gelatina. Com a definição em ideograma, até agora não descobri o que era.
Circulei pelos becos do comércio de Cantão onde a oferta de bichos no espeto é grande e me impressionei com a capacidade dos “barraqueiros” de enfileirarem uns oito escorpiões tão pequenos e desprovidos de carne no espeto de forma tão organizada.
Andando um pouco mais, chegou o problema. Um cheiro forte tomava conta da rua. Eu andava e ele me perseguia. Comecei a tossir de tão fedorento e até engunhei. Quase o almoço vai embora. Era como se uma pequena porção de esgoto estivesse sendo assada. É o tal do tofu envelhecido. Imagine um tofu desempenhando o papel de gorgonzola e sendo assado! E todo mundo comia isso e outras coisas como se o cheiro no ar fosse de picanha. Em Pequim, os churrasquinhos são tão tradicionais que o governo resolveu ordenar os vendedores, colocando fardamento e barracas padronizados. Tem de tudo, desde estrela do mar a gafanhoto.
Mas a cozinha da China também tem seus encantos. Me juntei com um grupo de companheiros de viagem para jantar na região central de Cantão e encontramos, numa rua escondida, um pequeno barzinho, com cadeiras na calçada e repleto de chineses. Fora a gente, nada de turistas. O cardápio sequer tinha versão em inglês, como nos pontos visitados. Era na base da foto e da confiança. Ana Cláudia Neves, a guia responsável pela nossa estada na China, tratou de imitar com competência um pato para saber qual carne no cardápio era a do animal. Listamos os pedidos: pato com um molho agridoce, camarão apimentado, uma carne – que não ficou muito claro qual era – e legumes. Tudo muito bom. Muito bom mesmo. No final, fiquei com a sensação de ter encontrado o Bar da Paz ou o Bar da Mira de Cantão. O nome do local, você deve estar se perguntando. Estava em ideograma, como todo o resto.
Diferença cultural é algo que encanta e assusta ao mesmo tempo. Aos poucos, a gente vai se acostumando e entendendo a razão de cada coisa estar onde está. Mas até chegar nesse ponto, sem querer e até de forma inconsciente, a gente termina tendo preconceitos. Durante a rodada de negócios promovida pela Fecomércio, vários empresários e representantes comerciais chineses foram ao encontro dos comerciantes brasileiros para vender seus produtos. Por alguns minutos, consegui a ajuda de uma valiosa intérprete e me aproximei de alguns empresários e funcionários chineses para conversar um pouco. Depois de um tempo, surge um convite. “Ele está perguntando se você quer conhecer a fábrica (de bomba de água) dele”. Eu, claro, me animei toda. Mas teria que ir sem intérprete. A missão já tinha programação pré-agendada. Naquele momento, eu tinha poucas horas de China e realmente fiquei em dúvida se já era hora de entrar num táxi com um endereço em ideograma na mão e seguir meu rumo por terras chinesas. Resolvo não ir e pedi para a intérprete agradecer o convite. Explicar que eu estava sem infraestrutura (carro e tradutor) para fazer a visita. “Ele disse que pode mandar um carro buscar você”, foi a resposta.
Por alguns segundos fico pensando se aceito entrar num carro e pegar a estrada seja lá para onde for. Foi naquele momento que o preconceito falou. Baixinho e magrinho como a maioria dos chineses, o vice-presidente da empresa resolveu escolher uma das unhas para deixar crescer livremente. Suja, ela era grande mesmo. Seus dentes eram igualmente pretos e ele se portava de um jeito estranho (pelo menos para mim). Falava alto, parecia uma discussão para os nossos padrões quando respondia às perguntas. Alguns dias depois, percebo que unha grande e preta é tão comum na China quanto arroz. E eu, vestida do meu preconceito inicial, deixei de fazer esse “passeio” por uma fábrica. Quanto aos dentes pretos que muitos deles têm, é realmente falta de cuidado. E a unha…bom, a unha é vista do taxista ao empresário. Sem separação de classe.
Para evitar maiores gastos, divido com meu marido um carro só. Tem hora que isso gera um pouco de confusão, mas a gente vai levando. Nos dias em que cada um quer quer ir para um lado, fico pensando: poderia me apertar um pouco e comprar outro veículo. E poderia ser um chinês! Com preços bem competitivos (pelo menos até acabar o estoque e entrar o novo valor do IPI para carros importados no Brasil), alguns modelos chegam a custar menos de R$ 25 mil com tudo!!! Mas comprar uma blusa chinesa e descobrir que ela não presta é uma coisa. Outra coisa é um carro. Resolvi, a partir disso, observar qual é a preferência de carros aqui na China. Aproveito sempre o trajeto entre um evento e outro da missão da Fecomércio para fazer uma contagem informal. Afinal, nada melhor do que saber o que dirige quem tem fabricado automóveis para o mundo para ter uma referência. Para minha surpresa, percebo muito mais carros Honda, Mercedes, Ford, Chevrolet, Peugeot do que JAC, por exemplo, que tem entrado pesado no mercado brasileiro. Até vi uns, mas bem menos do que imaginava. Chery tem uma certa presença, mas nada que possa causar um engarrafamento. Bom, não tenho o contato do “Detran” da China para pedir um levantamento fiel. Trata-se, reafirmo, de uma observação minha. Minha impressão é que, pelo menos em cidades onde as pessoas começam a ter acesso a uma renda melhor, como percebi em Xangai e em Cantão, os chineses procuram comprar itens mais caros, digamos assim. Deve ser isso….
É difícil tirar o estigma de que os produtos chineses são fracos. Isso em tudo. Inventei de comprar uma blusa cujo preço foi equivalente a R$ 20 no Brasil. Eu sei, eu sei, até no Brasil seria um produto de baixa qualidade, mas resolvi arriscar. Animada, aproveitei para usá-la na viagem entre Cantão e Hong Kong. Saída do hotel prevista para as 8h, chegada na estação de trem uns 15 minutos depois. Perdemos mais uns 30 minutos cumprindo toda a burocracia de saída da China (é que embora seja território chinês, Hong kong é considerada independente, com suas próprias regras, o que inclui a exigência de visto até para os chineses).
Calculo que entre a minha saída do banho até a chegada na estação eu tenha levado umas… duas horas. Esse foi também o tempo de duração da minha roupa nova. De repente, entre uma conversa e outra na sala de espera (aliás, a estação de trem de Cantão é melhor até do que muitos aeroportos no Brasil), percebo de relance algo branco na manga da minha nova blusa preta chinesa. Olhando mais atentamente, era o meu braço que eu estava vendo. Simples assim, a costura da roupa começou a se desfazer. E não era um buraquinho, não. Era algo que avançava a passos largos. Nada grave se eu tivesse na bolsa uma máquina de costura. Como não era o caso, tirei uma “santa blusa reserva” da bolsa e troquei de roupa no banheiro. Agora, devo gastar mais uns R$ 10, R$ 15 para reforçar a costura em algum lugar no Brasil e seguir com minha lembrança do mais latente problema da indústria chinesa no momento: a qualidade.
Sempre achei que sabia negociar preço. Um desconto aqui, outro ali, mas no Brasil quase nunca se consegue algo além dos 10%. Na China, negociar a compra de qualquer item é um jogo de resistência e blefe às avessas ao mesmo tempo. O vendedor finge que o produto vale muito e a gente que tem menos dinheiro na carteira do que de fato tem. Em Xangai, a moda é vender um tipo diferente de patins, com duas rodas e um sistema de encaixe para ser usado na altura do calcanhar. A peça, de um plástico duro, só deve resistir a poucas voltas de uso. O preço inicial: 150 RMBs (ou iuanes) – a moeda local. Fazendo a conversão com cada real valendo o equivalente a 3,18 iuanes, chegamos ao custo de R$ 37,73. E foi dada a largada. Ofereço 50 iuanes e logo levo uma bronca de um colega de viagem que estava ao meu lado. Terceira vez na China, Edson Carvalho ensina. “É 10% do valor”. A vendedora faz uma cara meio sorrindo meio séria e diz, em um inglês quase incompreensível: “80”. Opa, em questão de segundos o produto sai de 150 para 80! Segue a negociação. Apesar de puxarmos o preço para baixo, é ela quem nos segue. Qualquer sinal de interesse e eles colam na pessoa de uma forma quase insuportável. Vão atrás da pessoa por metros ao longo da rua. A cada passo o preço cai. No final da negociação, o produto, inicialmente estipulado em 150 iuanes, sai por 25. Cai de R$ 37 para R$ 7. Uma vez na China, e nunca confie no preço da “etiqueta”.
Decidi voltar a malhar. Nunca achei que essa decisão fosse tomada entre as ruas de Xangai ou Cantão, onde de fato aconteceu. E foi num momento dos mais inusitados. Para quem nunca teve oportunidade de vir à China ou nunca procurou saber como são os banheiros públicos daqui, é de fato uma surpresa. As louças sanitárias são feitas para ficarem praticamente no mesmo nível do chão, com o usuário tendo que ficar de cócoras para fazer o que precisa ser feito. E foi ali, depois de andar pelas ruas e acumular muito xixi que percebi que até nessa hora a gente sente o quanto é ruim estar fora de forma.
Vendo aquela louça no chão e desconfiando de sua limpeza, a ideia era ficar próxima o suficiente para não errar e distante o necessário para evitar qualquer contato. Aí, pronto! Sabe aquela leve tremedeira que dá na perna quando você fica tensionando por algum tempo e sua musculatura não tem resistência para isso? Foi o que aconteceu. Juro, era só um xixi mais longo. Coitado de quem comeu um pato estragado ou um cachorro meio passado. Aí, é problema. Meu chefe Saulo Moreira, que esteve aqui na China no ano passado, já havia me falado desse “modelo” de banheiro – que, aliás, tem descarga como qualquer outro. Mas mesmo já sendo avisada, se deparar com ele é algo engraçado. A ideia dos orientais é manter o usuário menos tempo possível no banheiro com base no argumento de que ficar sentado por muito tempo faz mal. E funciona. Até agora, não vi uma fila nos banheiros. Todo mundo entra e sai bem rapidinho.
É uma situação aparentemente boba, mas que nos faz lembrar que há uma cultura completamente diferente – mesmo depois de 30 anos de abertura de mercado e tudo que isso impôs a China.
Hoje, quem circula pelas ruas do centro popular do Recife tem uma pequena amostra da capacidade de vender dos chineses. Mas confesso que agora, depois de circular um pouco pelo seu comércio, em Xangai, acredito que fora do seu país de origem eles terminam sendo um pouco arredios. Mais à vontade para trabalhar quando estão na própria China, eles são verdadeiros vendedores. Eu, consumista de carteirinha, me sinto na toca do leão o tempo inteiro. O assédio nas ruas é assustador e nas lojas o atendimento deixa você constrangido por não levar a mercadoria. Outro dia quase levei um creme para rugas chinês quando fui a uma farmácia apenas em busca de um hidrante labial. Resolvi entrar numa loja de roupa e me deparei com Chen. Uma chinesa risonha, elétrica, animada e atenciosa. Tudo num pessoa só.
Fiquei com a impressão de que enquanto as vendedoras brasileiras são treinadas para fazerem aquela cara blasé quando nos atendem, as chinesas são programadas para vibrarem. Claro que o nosso olho mais redondo ajuda (a gente vira um tipo de atração e uma funcionária chegou a pedir só para olhar para o meu rosto e rir, rir e rir. Espero que ela não tenha me achado feia). Quando pedi um número menor de uma determinada roupa, Chen gritou, gesticulou, parecia que estava numa competição.
Na hora de provar, ela me colocou numa cabine que já estava devidamente ocupada com roupas e sapatos de uma outra cliente, mas ela sequer se importou. Me encaixou lá dentro fazendo sinal de “deixa pra la” com a cabeça. Saio com a roupa para usar o espelho e ela já corre para ajudar a terminar de amarrar a peça. Pega, puxa, ajeita daqui, mais um retoque ali e pronto. Como boa vendedora, faz uma sinal de positivo e já me vem com um promoção. Com uma inglês rasteiro e o meu quase no mesmo nível, ela tenta me dizer que com o valor da minha peça (599 iuanes, o equivalente a R$ 188), posso levar um relógio desde de que eu pague outros 29 iuanes ( R$ 9,18). Eu, claro, como boa compradora, aderi e saí da loja feliz da vida. Mesmo calculando que paguei pela roupa o mesmo valor que pagaria no Brasil. Mas isso é assunto para outra conversa. Decepcionar Chen e sair de mãos vazias era algo que eu, recém chegada, não queira. Por preço nenhum do mundo.